Augusto Gameiro apresenta a AEx Ame Mais Animais

Por que valorizar animais é também extensão universitária

Por Augusto Hauber Gameiro, professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP

Jornal da USP, 12/12/2025

A curricularização da extensão universitária representa um dos movimentos mais significativos da Universidade de São Paulo nos últimos anos, aproximando a formação acadêmica das necessidades concretas da sociedade e reafirmando o compromisso público da instituição.

Este artigo tem dois objetivos complementares: refletir brevemente sobre a relevância dessa agenda para a USP e para o País, especialmente em um momento em que a Universidade busca fortalecer seu papel social; e apresentar a Atividade Extensionista Curricular (AEX) Ame Mais Animais: Planejamento e Execução de Campanhas para a Valorização dos Animais na Sociedade, sob minha responsabilidade, desenvolvida na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP, que propõe promover processos formativos e dialógicos sobre a valorização dos animais como parte essencial de uma sociedade mais responsável, empática e alinhada aos princípios da Saúde Única.

Um pouco sobre a curricularização da extensão no País e na USP
A curricularização da extensão no Brasil não surgiu por acaso: ela foi resultado de um longo processo histórico de fortalecimento da missão social das universidades e da necessidade de superar modelos assistencialistas e fragmentados que, por décadas, limitaram a extensão a ações periféricas e pouco integradas ao ensino e à pesquisa.

Como destaca a professora Simone Loureiro Brum Imperatore em seu livro Curricularização da Extensão, a falta de um marco regulatório nacional permitiu a proliferação de concepções díspares e práticas pouco articuladas entre instituições, situação que só começou a ser superada com a Meta 12.7 do Plano Nacional de Educação (Lei 13.005/2014) e sua regulamentação pela Resolução CNE/CES nº 7/2018, que estabeleceu parâmetros claros para integrar, de modo estruturante, a extensão aos currículos universitários.

Essa mudança legal expressa um entendimento central de que a formação superior deve ir além da sala de aula, articulando-se à realidade social e promovendo práticas transformadoras em diálogo com as comunidades. A extensão, quando vinculada à formação acadêmica, torna-se um eixo de aprendizagem crítica, emancipatória e situada historicamente, capaz de aproximar universidade e sociedade, fortalecer a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão e contribuir para o desenvolvimento social de modo equitativo e sustentável, como defende a professora Simone em diversas passagens de sua obra mencionada anteriormente.

A Universidade de São Paulo vem se movimentando de forma estruturada para atender às exigências nacionais de curricularização da extensão. Em 2024, a USP aprovou a Resolução conjunta CoCEx/CoG nº 8.711, que regulamenta, no âmbito da instituição, a inserção de atividades extensionistas na matriz curricular de todos os cursos de graduação, determinando que, no mínimo, 10% da carga horária total seja cumprida em Atividades Extensionistas Curriculares (AEX), sem aumento da carga horária global e com ênfase em formação humanista, cidadã e ética.

Esse movimento é acompanhado pela Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária, que produziu sucessivas edições do Guia de Curricularização da Extensão, documento que apresenta o marco legal, explicita motivações, benefícios para estudantes e sociedade e propõe caminhos práticos de implementação, articulando extensão, ensino e pesquisa no cotidiano dos cursos. Além disso, a USP mantém um portal dedicado à curricularização, com roteiros para cadastro de AEX no sistema Apolo, materiais de apoio e webinários, bem como editais de fomento que exigem vínculo claro entre as ações extensionistas, o projeto pedagógico e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, reforçando que a extensão deixa de ser atividade periférica para se tornar eixo estruturante da formação em todas as unidades da Universidade.

Ainda um desafio para muitos de nós

Apesar dos avanços institucionais, não se pode ignorar que a implementação da curricularização da extensão tem imposto desafios reais às unidades da USP e a muitos docentes. Parte dessa dificuldade se explica por razões históricas: durante décadas, a extensão ocupou um lugar marginal na vida acadêmica, sem o mesmo prestígio ou “glamour” tradicionalmente associado ao ensino e, sobretudo, à pesquisa. Não se trata de resistência intencional, mas de um processo de adaptação a uma mudança estrutural profunda, que exige novas formas de planejar, avaliar e compreender o papel da universidade na sociedade.

Contudo, essa realidade está mudando de maneira consistente. Ao integrar a extensão como dimensão formativa, a USP amplia suas possibilidades de inovação educacional e fortalece seu compromisso público, devolvendo à sociedade, que sustenta a Universidade por meio de recursos públicos, ações de impacto concreto, socialmente relevantes e academicamente qualificadas. Trata-se, portanto, de um movimento que, embora desafiador, tende a enriquecer a formação discente e a produzir efeitos positivos duradouros para toda a comunidade universitária.

AEX Ame Mais Animais da FMVZ

É nesse contexto que se insere a Atividade Extensionista Curricular (AEX) Ame Mais Animais: Planejamento e Execução de Campanhas para a Valorização dos Animais na Sociedade, desenvolvida na FMVZ, cuja finalidade é aproximar os estudantes das demandas reais da sociedade por meio do planejamento e execução de campanhas voltadas à valorização dos animais em diferentes contextos.

A proposta organiza os alunos em grupos responsáveis por todo o processo de construção de uma campanha: desde a problematização inicial e definição do público-alvo até a execução presencial e a devolutiva à comunidade, permitindo que cada grupo trabalhe com um perfil específico: animais de companhia (pets), animais de produção ou animais silvestres. Trata-se de uma atividade de 100 horas que integra teoria e prática, orientada por metodologias participativas, princípios pedagógicos freirianos, fundamentos da Teoria Geral da Administração e pela perspectiva integrada da Saúde Única. Ao mesmo tempo, seus objetivos incluem estimular competências cognitivas, habilidades de comunicação e atitudes éticas, formando profissionais capazes de reconhecer o papel dos animais na vida social e de atuar de maneira crítica e responsável na promoção de seu bem-estar.

Um dos pilares mais relevantes do “Ame Mais Animais” é o desenvolvimento de habilidades sociais, hoje amplamente reconhecidas como fundamentais para a formação universitária, mas ainda pouco trabalhadas de forma sistemática no ensino superior. Trata-se de uma atividade aberta a estudantes de todos os cursos da USP, sem qualquer restrição, o que amplia a riqueza da experiência ao reunir perspectivas diversas e incentivar o diálogo interprofissional.

Em um contexto contemporâneo marcado pela crescente individualização promovida pelas tecnologias de comunicação, a AEX cria condições reais para que os alunos pratiquem cooperação, organização coletiva e corresponsabilidade. Cada grupo deve construir sua campanha “do zero”: organizar-se a partir dos interesses comuns, identificar problemas reais junto à sociedade, planejar estratégias, produzir conteúdo e realizar uma devolutiva efetiva às comunidades envolvidas. Esse processo favorece o protagonismo estudantil e fortalece competências como negociação, tomada de decisão, gestão de conflitos e trabalho em equipe, competências essenciais para qualquer profissional que pretenda atuar de forma crítica, ética e socialmente comprometida.

No contexto da AEX Ame Mais Animais, as campanhas constituem iniciativas estruturadas que buscam valorizar os animais diante da sociedade, reconhecendo sua senciência e seu valor ético intrínseco, conforme orienta o projeto pedagógico da atividade. Assim, uma campanha pode assumir diferentes formatos, como ações de caráter ativista em defesa de espécies silvestres ameaçadas; processos educativos voltados a orientar famílias e responsáveis sobre cuidados essenciais aos pets, promovendo saúde e convivência harmoniosa em contextos multiespécies; ou iniciativas que valorizem produtos de origem animal — como leite, carne e ovos — não apenas pelo benefício econômico que trazem aos humanos, mas pelo compromisso com melhores condições de vida e bem-estar animal, reforçando que práticas produtivas responsáveis são inseparáveis do respeito que esses animais merecem.

Em todos os casos, a campanha é entendida como uma intervenção social fundamentada em evidências, ética e diálogo, cujo objetivo é transformar percepções, práticas e relações entre humanos e animais de maneira consistente e sensível.

A nossa primeira edição do Ame Mais Animais ocorrerá no primeiro semestre de 2026 e contará com 20 vagas, abertas a estudantes de graduação de todas as unidades da USP. A atividade será realizada entre 2 de março de 2026 e 26 de fevereiro de 2027, com carga horária total de 100 horas. As inscrições estarão abertas de 5 de novembro de 2025 até 31 de janeiro de 2026, seguidas pelo período de seleção entre 2 e 13 de fevereiro de 2026; o resultado será divulgado no dia 14 de fevereiro, data a partir da qual os estudantes selecionados terão cinco dias para confirmar participação pelo sistema Júpiter.

O processo de seleção incluirá entrevistas (individuais ou em grupo), com foco no alinhamento entre os interesses dos candidatos e a proposta da AEX. Embora parte das atividades possa ocorrer de forma remota, a ação exige que cada estudante participe de atividades “a campo”, isto é, em contato direto com o público atendido pelas campanhas. Isso também deverá ser combinado entre os grupos. Assim, estudantes de quaisquer campi da USP podem participar em atividades planejadas pela equipe.

Por isso, é fundamental que os participantes tenham disponibilidade para atuar fora dos limites físicos da Universidade, garantindo que a extensão se realize como prática concreta e transformadora, conforme previsto no projeto.

Considerações finais

A curricularização da extensão, ao se tornar uma exigência legal nacional, reafirma o compromisso das universidades brasileiras — e da USP em particular — com uma formação que ultrapassa os muros institucionais e dialoga diretamente com as necessidades e desafios da sociedade.

A AEX Ame Mais Animais, promovida pela FMVZ, é um exemplo concreto desse movimento: uma iniciativa que, ao mesmo tempo em que valoriza os animais e promove o debate ético e científico sobre nossa relação com eles, materializa na prática o espírito da extensão universitária como processo formativo, crítico e socialmente engajado.

Não por acaso, a atividade tem atraído um grupo crescente e diverso de estudantes, provenientes de diferentes cursos e unidades da USP. Já temos alunos inscritos do Instituto de Química (IQ), do Instituto de Biociências (IB), da Escola Politécnica (EP) — especialmente alunos da Engenharia Ambiental —, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF), do Instituto de Geociências (IGc), do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) — incluindo estudantes vinculados ao Observatório Abrahão de Moraes —, da Faculdade de Direito (FD), da Esalq, da FZEA, além, evidentemente, da própria FMVZ.

Essa participação plural demonstra que a valorização dos animais é um tema transversal, capaz de mobilizar diferentes áreas do conhecimento, e reforça que a extensão universitária, quando bem estruturada, torna-se um espaço privilegiado de formação cidadã, diálogo interdisciplinar e devolução efetiva do conhecimento à sociedade que sustenta a universidade pública.