A pesquisa de Mariana  Sequetin Cunha  foi publicada na edição de abril da revista Scientific Reports, que faz parte do grupo Nature, reconhecidos periódicos científicos. Exemplo concreto da importância da atuação de médicos-veterinários na saúde humana. 

Trata-se da abordagem de diversos pontos a respeito do surto de febre amarela que ocorreu no Brasil, de meados de 2016 ao início de 2017. Descreve a disseminação do vírus da febre amarela para áreas do estado de São Paulo que eram consideradas livres da doença, como a região de Capinas/SP, onde a vacinação não era recomendada.

A  detecção do vírus em primatas não humanos (PNHs) encontrados mortos, levou a uma rápida vacinação no local, prevenindo assim casos humanos. As amostras de fragmentos desses animais foram enviadas ao Instituto Adolfo Lutz,  para  realização do  teste molecular para detecção do vírus em órgãos congelados e de imunohistoquímica em amostras de fígado.

Ao comparar  os resultados entre virologia e patologia, os pesquisadores perceberam que os PNHs que pertenciam ao gênero Callithrix (saguis), o vírus foi detectado em fígado e/ou cérebro, mas  a doença não se manifestava no exame patológico. Dessa forma, a descoberta, que não havia sido descrita  nos recentes estudos,  foi que provavelmente os saguis  têm  maior resistência ao vírus da febre amarela e acabam morrendo por outras causas como traumatismos, entre outros.

Por fim, por meio de sequenciamento do genoma completo e análises da relação evolutiva entre os vírus (filogenia) e o vírus isolado de algumas amostras dos PNHs e mosquitos do gênero Haemagogus positivos, da primeira região afetada no estado, em 2016, que foram os municípios de  Rio Preto e Ribeirão Preto, mostrou que a introdução do vírus se deu por Minas Gerais. Mariana explica que essa conclusão se baseou no caminho em que os vírus  mais antigos foram encontrados.

Além de terem aprendido, por meio de um surto, que não se via há décadas no estado, que os arbovírus não tendem a respeitar barreiras, a principal contribuição da pesquisa, segundo Mariana, é mostrar à população a importância dos órgãos públicos vinculados à saúde e sua atuação na prevenção dessa importante doença de alta letalidade em seres humanos. “Acredito ser uma honra para todos nós, que trabalhamos na base da Saúde Pública,  ver nosso esforço de anos ser divulgado em uma revista de alto impacto e de grande importância para a comunidade científica nacional e internacional”, destacou.

A  pesquisa foi realizada com o apoio de diversas esferas públicas como médicos-veterinários e técnicos dos municípios que coletaram e enviaram amostras; equipes do Instituto Adolfo Lutz, do Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE) e da Superintendência de Controle de Endemias (Sucen) do governo do estado de São Paulo, que coletaram e identificaram mosquitos. Também teve parceria com o Instituto de Medicina Tropical (IMT) da USP, que realizou o sequenciamento genético e a publicação;  e da  Universidade Federal do Pará, que fez as análises de filogenia.

O trabalho recebeu recursos  públicos provenientes da Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo, uma vez que a febre amarela é de notificação compulsória e o Instituto Adolfo Lutz é o órgão de referência para o diagnóstico desta doença. A Dra. Ester Sabino, do IMT USP, contribuiu com  verba de pesquisa que custeou o sequenciamento dos genomas.

A pesquisadora graduou-se na FMVZ USP em 2007 e recentemente terminou seu doutorado no Departamento de Patologia, sob a orientação do professor Paulo César Maiorka.