Por Carolina Fioratti – Publicado originalmente no site da AUN ECA/USP

Com o intuito de oferecer informação técnica de forma clara sobre doença periodontal em cães e gatos para médicos-veterinários não especializados, criou-se como dissertação de mestrado uma cartilha educativa que traz informações sobre mitos, verdades e outras características envolvidas no problema.

Juliana Durigan Baia, pesquisadora da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP), analisou sobre a negligência dos profissionais em relação a odontologia animal.

“A doença periodontal é o problema odontológico que mais acomete cães e gatos adultos no mundo. A cada dez cães e gatos adultos, pelo menos nove vão ter algum grau de doença periodontal”. Apesar da alta recorrência, a veterinária conta que o tema não foi estudado de forma aprofundada durante sua graduação e acredita que tal fato é recorrente em diferentes universidades. Além disso, os profissionais já atuantes no mercado não procuram novos dados e ficam desatualizados, realizando procedimentos muitas vezes indevidos.

As bactérias presentes na boca animal são iguais às presentes no ser humano e, a cada 24 horas, elas se organizam formando uma película chamada de placa bacteriana, a qual incomoda o tecido que sustenta e protege os dentes causando sua destruição e estimulando a inflamação. Com isso, têm-se a importância de realizar a escovação dos dentes dos animais, assim como é feita pelos humanos. A ação mecânica das cerdas desorganiza a placa bacteriana para, assim, evitar infecções.

Com o passar do tempo, cães e gatos que não realizam a escovação diariamente começam a acumular camadas de placa bacteriana, o que cria um ambiente propício para a proliferação de outro grupo de bactérias, as denominadas “destruidoras” ou patogênicas. Antes, o que era apenas uma inflamação, passa a apresentar destruição massiva do tecido, causando inflamação e retração da gengiva, a qual funciona como barreira de proteção física para os dentes.

Os dentes são divididos em duas partes, a parte visível, chamada de coroa, e a parte “escondida” pela gengiva, que seria a raiz. “Eles também são órgãos vivos, logo possuem nervos, vasos sanguíneos e linfáticos”, explica Juliana. “As bactérias patogênicas começam a acessar a ponta da raiz dentária (região periapical), alojam-se e, a única forma de resolver o problema, é com remoção mecânica”, completa a veterinária. Enquanto isso, a bactéria se movimenta pela corrente sanguínea (bacteremia) e, caso encontre outro órgão lesionado, como um rim ou fígado, liga-se à região inflamada.

Algumas clínicas veterinárias oferecem um serviço chamado de tartarectomia. No qual realiza-se uma ultrassonografia odontológica e limpa-se o cálculo dentário formado em razão dos sais minerais, como fósforo e cálcio, provenientes da saliva. Estes se depositam nas placas bacterianas formadas há certo tempo. No entanto, tal procedimento é apenas estético, pois dá a sensação de limpeza no dente dos animais e não examina a raiz por meio de radiografia intraoral. “Quando a gente faz apenas a limpeza do tártaro, ele é uma sujeira, não é a doença”, explica a pesquisadora.

Além da realização de serviços inadequados, o veterinário despreparado pode submeter cães e gatos à queimaduras na gengiva, inflamação dentária devido ao calor excessivo da ultrassom, entre outras lesões chamadas de iatrogênicas. Tais fatos resultam na morte do dente, que fica suscetível a proliferação de bactérias gerando um abcesso na região do ápice da raiz. O erro desencadeia uma série de problemas, começando pela necessidade de extração do dente, a qual muitas vezes é feita utilizando instrumentos odontológicos humanos. Ao retirar o dente, um veterinário não especializado pode não perceber pedaços da raiz deixados quebrados pela força, o que se torna um corpo estranho e gera um processo infeccioso.

Na planilha desenvolvida, fala-se sobre os instrumentos corretos, importância da radiografia intraoral, anatomia da cavidade oral e do crânio, sinais clínicos e tratamento. “É um material que não serve para incentivar a realização do tratamento periodontal, ele serve para mostrar a importância da doença periodontal e a complexidade do tratamento”, explica Juliana. “É como se fosse um aviso para que o profissional não especializado vá buscar informação técnica. O ideal é que ele faça cursos, invista em equipamentos e quando não puder ajudar, encaminhe o paciente para um profissional em doenças periodontais”, completa a especialista.

Principais sinais clínicos da doença periodontal | Imagem: Cartilha “A doença periodontal em cães e gatos”

 

Acesse a cartilha completa aqui.