Novo banco de dados da biodiversidade foca em doenças transmitidas entre animais e pessoas
Banco de dados brasileiro, o Biorrepositório Nacional da Biodiversidade (BionaBio) deve contribuir com a investigação e o enfrentamento de doenças zoonóticas
Jornal da USP: 14/10/2025
Texto: Yasmin Constante*; Arte: Gustavo Radaelli**
Zoonoses são doenças ou infecções que podem ser transmitidas entre animais e seres humanos, como a covid-19, gripe aviária e ebola, por exemplo. As informações sobre a amostragem e o diagnóstico laboratorial dos patógenos causadores dessas doenças não estão organizadas em nível nacional, o que dificulta o rastreamento e a medição do risco de transmissão. Para preencher essa lacuna, pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMZV) da USP criaram o Biorrepositório Nacional da Biodiversidade (BionaBio), um banco nacional de dados voltado para a conservação e vigilância de zoonoses.
O projeto começou a ser desenvolvido em 2023, quando sete países decidiram se unir para criar repositório virtual com amostras de fauna de países americanos. Segundo Ricardo Dias, docente da FMVZ e coordenador do BionaBio, este banco de dados buscará atuar de forma ampla: fomentar, melhorar e dar bases para vigilância epidemiológica de patógenos em populações de animais selvagens, além de fornecer informações sobre a biodiversidade brasileira.
O BionaBio pretende, também, ser um espaço de integração entre pesquisadores, instituições, serviços veterinários, curadores de coleções e centros de triagens animais de todo o País. A ideia é estruturar um indexador nacional com amostras de animais que podem servir de reservatórios para patógenos, além de ajudar na preservação das espécies. As informações serão depositadas por parceiros, que podem ceder a utilização dos dados para pesquisadores interessados. “Queremos criar um hub, onde as pessoas possam achar parceiros potenciais”, explica o docente.
Através da análise da rede será possível perceber como ela funciona hoje e como pode ser otimizada. “Não vamos ficar só esperando os dados chegarem, vamos também fomentar a colaboração entre parceiros que não colaboram atualmente”, aponta Dias.
Financiamento
A resposta positiva para o financiamento foi dada em dezembro de 2024, através do Belmont Forum, que mobiliza financiamentos sobre mudanças ambientais mas, segundo Dias, a “alegria durou pouco”. Ao tomar posse, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, congelou 95% da verba que viria do National Science Foundation (NSF). Os outros 5% viriam de outras fundações de auxílio à pesquisa, como a Fapesp. Ele explica que a verba ficou congelada até julho, mas foi liberada recentemente.
Entre os investidores, está o Instituto Todos pela Saúde (ITpS), que atua como parceiro do projeto desde o princípio. O professor explica que o instituto investiu no biorrepositório antes da liberação do dinheiro pelo Belmont Forum. O ITpS é uma entidade sem fins lucrativos criada em 2021, que tem como objetivo preparar o Brasil para o enfrentamento de surtos, epidemias e pandemias.
Segundo Anderson Fernandes de Brito, coordenador científico do ITpS, a entidade dá apoio financeiro e técnico de iniciativas em três principais frentes: fortalecimento de redes de vigilância epidemiológica, análise de dados genéticos e epidemiológicos, promoção de informações relevantes sobre saúde pública e formação de profissionais da área.
O instituto tem a capacidade de apoiar financeiramente alguns projetos, principalmente com dinheiro semente, um primeiro aporte para iniciativas como o BionaBio. “Ao invés de aguardarmos que esse financiamento [estrangeiro] chegue, podemos financiar os passos iniciais desse projeto”, relata Brito sobre a participação do ITpS.
O BionaBio tem aspectos que perpassam as três áreas. Ele está alocado, principalmente, no campo de fortalecimento de rede. Mas, por se tratar de um repositório, abre margem para ações referentes à análise de dados, além da comunicação ao redor dele, que revela a importância e necessidade do projeto existir.
“Para o público geral, é complexo entender qual é a relevância de se coletar amostras de animais para a saúde pública. Muitos não têm a percepção de que diversos vírus que vêm assolando a saúde pública circulavam em animais e, eventualmente, saltaram para hospedeiros humanos” – Anderson Fernandes de Brito
Muito além de um banco de dados
Brito relata ter entendido a importância do projeto quando, durante uma visita à FMVZ, Ricardo Dias o apresentou a um biorrepositório de amostras. “Ele abriu uma geladeira aleatória, puxou uma caixa aleatória e um tubo aleatório e falou: ‘Você está vendo como esse tubo não tem o mínimo de identificação para sabermos o que tem dentro dele’? O tubo, da forma que estava identificado, não serve para nada.”
Segundo Brito, o BionaBio poderá ser uma ferramenta útil em cenários emergenciais. Um exemplo é a análise de riscos de regiões em que patógenos e hospedeiros podem se instalar.
“Em um País diverso como o Brasil o esperado seria que a gente tivesse uma grande diversidade de patógenos emergindo de tempos em tempos, e não é isso que acontece. Não porque nós não temos os patógenos circulando, mas porque não temos uma organização em rede para lidar com esse desafio” – Ricardo Dias
O docente destaca ainda que há uma “cratera” na investigação da circulação de patógenos na fauna brasileira. “É uma grande dificuldade quando pensamos na saúde de forma ampla. Não só a saúde de animais, mas a relação deles com animais de produção e destes animais com humanos, além das próprias condições ambientais que permitem essa circulação”, completa Dias.
Atualmente, os pesquisadores envolvidos no projeto trabalham com vertebrados, principalmente os terrestres. Em geral, os vertebrados são os hospedeiros de patógenos que causam doenças, por isso, até o momento, o banco tem esse recorte. “Os invertebrados não estão descartados, queremos ampliar a lista de espécies. Estamos com quase 4 mil [animais cadastrados], porque são muitos os vertebrados brasileiros”, completa.
Dias explica que atualmente os pesquisadores trabalham para criar a Produção de Procedimentos Operacionais Padrão (POP), um documento que registra e padroniza as etapas de um processo. “Fizemos cerca de quatro POPs para o site do BionaBio como pré-prints. Quando todos eles relacionados à captura estiverem prontos, vamos fazer manuais de captura de vertebrados terrestres e materiais de apoio. Esse tipo de material não existe nem em inglês nem em português, talvez sejamos pioneiros”, aponta o docente.
O Biorrepositório Nacional da Biodiversidade pode ser acessado aqui.
Mais informações: e-mail ricardodias@usp.br, com Ricardo Dias, e anderson.brito@itps.org.br, com Anderson Fernandes de Brito
*Estagiária sob orientação de Fabiana Mariz
**Estagiário sob orientação de Simone Gomes
